Caros colegas de jornada...
Entre uma leitura e outra, certo dia deparei-me com o livro "Aventuras do Barão de Münchhausen" e senti grande afinidade entre este texto e o narrado por Alexandre (em Alexandre e outros heróis).
Transcrevo, a seguir, um trecho de uma das façanhas realizadas pelo Barão:
- Imaginem vocês... Numa bela tarde, o Sol, já descendo, eu voltava para casa, depois de um dia de caçadas maravilhosas. Vinha recordando aquelas coisas, distraído, quando senti que o valente Ajax estancara de brusco. Estava em frente a um fosso de lama, largo e assustador. Olhei melhor. O caminho terminava ali, mas continuava mais adiante, além do lamaçal. Eu me lembrei, então, de ter ouvido dizer, dias antes, que uma chuva torrencial levara consigo a ponte que havia ali. Consertá-la? Era preciso. Eu devia ter providenciado. Mas, empolgado com as caçadas, não o fizera. "Bem, vou examinar o que é preciso fazer." Examinei o fosso, fiz os meus planos. "Mas tenho que ir para casa", pensei. Dar a volta? Já perdera tempo. Esporeei o meu valente... Ajax se empinou, saltou e, de repente, pairamos no ar. Nisso, eu me lembrei de que Ajax devia estar cansado dos trabalhos da tarde, pois havíamos perseguido e capturado 25 ou 30 lebres (cansara de contar), e provavelmente não tomara impulso bastante para voar sobre o fosso. Era preciso nova embalagem. Pensam que hesitei?
Cravou os olhos nos ouvintes.
- Pensam que perdi tempo? No mesmo segundo, nós estávamos no ar, fiz meia-volta, puxando o freio, e voltamos para a margem de onde havíamos saído.
- Como? - perguntou alguém.
- Rapidez, meu filho, rapidez! Antes que ele caísse, eu já estava de volta! Aí dei umas pancadinhas de estímulo, no pescoço do animal, recuei um pouco, para Ajax pegar impulso maior, galopei de novo rumo ao lodaçal, esporeei o meu bravo, "Coragem, meu corcel!", e foi aquele salto fabuloso! Mas aí é que foi o problema. Até um cavaleiro como eu pode errar. É difícil, mas pode. Calculei mal e não tomei distância bastante para o impulso. No meio do ar, senti que Ajax não podia chegar à outra margem. Ele também sentiu e deu mais um arranco no espaço. Mas não chegou.
Olhou o efeito causado e concluiu:
- Desabamos na lama. Começamos a afundar. Era a morte certa. O mundo ia perder dois grandes. Outro qualquer gritaria pro socorro. Não seria eu, Barão de Münchhausen, quem passaria por essa humilhação. Usei a cabeça. Com as pernas apertei fortemente o nobre animal, cravei as esporas e, vejam só que idéia!, agarrei minha própria trança e puxei para cima.
- E Ajax?
- Ajax subiu comigo. Estava preso entre minhas pernas, com as esporas nas ilhargas...
Tomou novo gole:
- Sim, eu não ia, de jeito nenhum, perder um amigo como Ajax. Porque não sou apenas forte, sou bom, estão me entendendo? Sim, bom mesmo. Bom cavaleiro e bom amigo... Aliás, sou bom cavaleiro, bom amigo, bom caçador... e bom de cabeça! (...)
Raspe, Rudolf Erich. Aventuras do Barão de Münchhausen [traduzido por Orígenes Lessa].7ª edição, Rio de Janeiro: Ediouro, 1996, p. 11-12.
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