terça-feira, 23 de março de 2010

O apanhador de desperdícios

Depois de muitas idas e vindas, tenho a sensação de que meu exercício de reflexão se aproxima do puro delírio. De qualquer forma, é um exercício...

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

"Memórias inventadas - A Infância", Manoel de Barros. Ed. Planeta.


Poeta da simplicidade, Manoel de Barros dá destaque aos pequenos detalhes da natureza, aquilo que normalmente passa despercebido aos olhos da maioria dos mortais. Penso que talvez possa vir dessa idéia o sentido do título ("o apanhador de desperdícios") e de alguns de seus versos, como por exemplo "Dou respeito às coisas desimportantes/e aos seres desimportantes".
"Tenho em mim esse atraso de nascença/Eu fui aparelhado/para gostar de passarinhos". Seu poema reflete uma certa mansuetude, que pode advir da forma como vê a vida e as coisas ao seu redor, uma vez que cresceu em uma fazenda no pantanal, onde passava a vida a olhar para a rotina de trabalho do pai e para os pequenos detalhes da natureza, como os caracóis que subiam a cerca. "Meu quintal é maior que o mundo".
Inventor de palavras, como Guimarães Rosa, cria o vocábulo "invencionática" em oposição a "informática" e isto também reflete seu modo de agir, pois prefere escrever seus poemas à mão, a fazer uso da tecnologia. Mas o novo (representado pela informática) aparece na forma de palavras inventadas ou da criação de novos sentidos através do uso de metáforas. 
Como ele mesmo declarou em entrevista, costuma "personificar as coisas e coisificar o humano". Observando o poema pude constatar a utilização desse recurso em diversas passagens, como "palavras fatigadas de informar", "[palavras] que vivem de barriga no chão" ou "sotaque das águas".
Embora o poema me traga a lembrança de um texto biográfico, também me remete ao fazer do poeta, ao exercício de criação do poeta e às escolhas que faz enquanto escreve. 
Não notei o uso de rimas, somente a repetição do primeiro verso no último. Neste, o uso do advérbio "só", me parece, retoma a idéia do desperdício, ou seja, o poeta não usa a palavra em, não a desperdiça, usa-a apenas para compor seus silêncios.



2 comentários:

Anônimo disse...

Uau, Rosa, adorei o seu pseudo-delírio!
Beijos, boa quarta-feira!

Anônimo disse...

Se todos os delirantes fossem como você, o que seria dos psiquiatras? Ou melhor, para usar as palavras de Emanuele Tesauro: "o furor dos loucos frequentemente são belíssimos engenhos" e "vizinha da insânia é a sabedoria". Beijo grande pra você.