Asa Branca
Luíz Gonzaga
Composição: Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira
Quando oiei a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu preguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
"Intonce" eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão
Quando o verde dos teus óio
Se espaiá na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração
De acordo com Ataliba Castilho, todas as línguas sofrem variações, as quais podem ser determinadas pelo espaço que o locutor e o interlocutor atuam, que pode ser geográfico, social, temático e temporal.
Ao analisar a letra da música Asa Branca constatei o emprego do português não-padrão em algumas palavras escritas, destacadas no texto com a cor amarela:
OIEI, FORNAIA, ÓIO, ESPAIA - Neste grupo de palavras nota-se a iodização da palatal lh
PREGUNTEI - Não encontrei explicação para esta mudança no quadro de características do Português Brasileiro Popular, de Ataliba Castilho. Fiquei me perguntando se não seria um caso de rotacismo, muito embora não haja troca de l por r.
PRANTAÇÃO, FARTA, VORTAR, VORTAREI - Observa-se neste grupo de palavras a ocorrência de rotacismo, que se caracteriza pela troca de l por r em final de sílaba e em grupos consonantais
INTÉ - De acordo com o dicionário Houaiss, pode ser uma preposição ou um advérbio diacrônico, sinônimo de até. Conforme consta no referido dicionário, "o uso desta forma está restrito a pessoas de pouca ou nenhuma escolaridade, especialmente fora dos grandes centros urbanos". (In: http://houaiss.uol.com.br. Acesso em 23/05/2010)
"INTONCE" - Consultando o dicionário Houaiss pude verificar que este termo não existe, portanto imagino que deva ser uma variação diacrônica do advérbio arcaico entonces, sinônimo para então. Pode-se notar o emprego da variedade não-culta desse advérbio, uma vez que há perda de -s final e troca da vogal átona pretônica "e" por "i". (Será que é isso mesmo? Ainda estou me acostumando com esses termos novos...)
PRA MIM - De acordo com a variedade padrão, o correto seria para eu. Não sei explicar de outra forma.
LÉGUA - Na letra da música esta palavra deveria estar o plural, porém observa-se a omissão do -s final e o plural só fica evidenciado pela palavra que o antecede (muitas).
Ao ouvir a música pode-se constatar, também, que outras palavras sofrem variação ao serem ditas, como por exemplo:
QUANDO, BRASEIRO, GADO, CONTIGO, ESPERO, NOVO, ASSEGURO - ocorre a mudança da vogal final o por u.
DE, SEDE, HOJE, LONGE, TRISTE, VERDE, CHORE - ocorre a mudança da vogal final e por i.
ADEUS, CAIR - nota-se a perda do -s e do -r finais.
Um comentário:
Rosa,
gostei de ver!
Boa pesquisa!
Beijos,
Mazé
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